O último romance que Clarice Lispector publicou em vida tem menos de cem páginas, e isso engana muita gente. É um livro curto que pede leitura lenta. A obra integra a lista de leituras literárias da UFGD, ao lado de O som do rugido da onça, Uirapuru, Oração para desaparecer e O navio negreiro, e as provas objetiva e de redação do Vestibular 2027 acontecem em 18 de outubro de 2026. Há ainda um detalhe que muda o jeito de estudar: segundo a universidade, as obras podem ser cobradas em questões de múltipla escolha de diferentes áreas da prova objetiva. A pergunta sobre Macabéa pode aparecer em Literatura, mas também em História, Sociologia ou Geografia.
De onde veio Macabéa
O livro saiu em 1977, poucos meses antes da morte de Clarice. Numa entrevista a Júlio Lerner, na TV Cultura, em fevereiro de 1977, ela contou que a personagem surgiu de uma moça alagoana que viu numa feira nordestina no bairro de São Cristóvão, no Rio, uma jovem tão pobre que só comia cachorro-quente. O desfecho também tem origem na vida da autora. Segundo o biógrafo Benjamin Moser, Clarice frequentava uma cartomante e imaginou, ao voltar de táxi de uma consulta, como seria irônico ser atropelada logo depois de ouvir tantas previsões boas.
Esses dois episódios ajudam a entender algo que as provas gostam de explorar: a literatura parte da realidade observada e a transforma.
Três histórias dentro de uma
O romance entrelaça três linhas. A primeira é a vida da retirante Macabéa. A segunda é a crise do narrador, Rodrigo S.M., que se sente responsável pelas contradições sociais do país. A terceira é a própria construção do enredo, o que transforma o leitor em testemunha do ofício de escrever.
Na prática, isso significa que uma alternativa que descreva o livro como narrativa linear e tradicional, centrada apenas na protagonista, está errada. O processo de escrita faz parte do enredo.
Rodrigo S.M.: o narrador que se acusa
Clarice entrega a narração a um escritor inventado, e homem. Rodrigo diz ter mais dinheiro do que os que passam fome e se considera, por isso, de algum modo desonesto. Afirma também que não pertence a nenhuma classe social e que escreve “com o corpo”. Ele adia o começo da história, discute as próprias escolhas e confessa que sabe pouco sobre a moça.
Um trecho costuma chamar a atenção dos alunos. Rodrigo afirma que a história precisava ser escrita por um homem, porque uma escritora mulher poderia cair no sentimentalismo. Cristina Ferreira-Pinto lê essa afirmação como ironia: por meio do narrador, Clarice critica a tradição que tratava a escrita feminina como literatura menor. A própria autora desfaz a separação na dedicatória, que se apresenta como “do autor”, com a observação entre parênteses de que se trata, na verdade, de Clarice Lispector.
Os treze títulos que abrem o livro, entre eles “A culpa é minha”, “O direito ao grito” e “.Quanto ao futuro.”, mostram um narrador que não consegue dar um único nome ao que conta. Ferreira-Pinto chama atenção para o silêncio entre os dois pontos desse último título, um silêncio diante do desconhecido.
Macabéa: a personagem que não se pergunta quem é
Macabéa perdeu os pais aos dois anos, no sertão de Alagoas, e foi criada em Maceió por uma tia beata que a castigava com cascudos na cabeça. No Rio, trabalha como datilógrafa e divide um quarto com outras quatro moças, balconistas das Lojas Americanas. Erra palavras ao datilografar, come mal, ouve a Rádio Relógio, que dá “hora certa e cultura”, e coleciona palavras que não entende. Uma delas é “efeméride”, que ela copia com atenção a cada letra e pela qual acaba se encantando.
O nome também tem história. Ele remete aos Macabeus, guerreiros do Antigo Testamento, numa referência irônica: a moça sequer tem consciência da própria má sorte.
A crítica lê essa personagem de maneiras diferentes, e conhecer mais de uma leitura ajuda a resolver questões interpretativas.
- Berta Waldman. Destaca que a construção de Macabéa se apoia na falta, mas que, vista por outro ângulo, essa falta aponta para uma plenitude. Por isso Macabéa é aproximada do bicho e do capim e vive fora da linguagem das convenções. Num diálogo com Olímpico, ela diz saber o próprio nome, mas não o que existe dentro dele.
- Elizabeth Brose. Lê o romance pelo existencialismo. O narrador tem o poder de escolher, enquanto Macabéa segue o destino previsto pela cartomante e morre sem ter decidido os rumos da própria vida.
Olímpico, Glória e Madama Carlota
Olímpico de Jesus é paraibano, trabalha numa metalúrgica e sonha ficar rico e virar deputado pela Paraíba. Ele despreza as perguntas de Macabéa e acaba trocando a namorada por Glória, colega de trabalho carioca, bem alimentada e com família.
Atenção na prova: a famosa reescrita de Euclides da Cunha, “o sertanejo é antes de tudo um paciente”, se refere a Olímpico. O narrador a escreve logo depois de revelar a dura semente do mal que existe nele, e em seguida o perdoa. Onde Euclides via força, Clarice mostra um homem com fome de ser outro.
Com remorso, Glória empresta dinheiro a Macabéa para uma consulta com Madama Carlota, a mesma cartomante que tinha previsto o namoro dela com Olímpico. A cartomante diz a Macabéa que a vida dela é horrível, mas promete um destino maravilhoso, com um estrangeiro rico e louro. Nesse momento, Macabéa percebe pela primeira vez a própria miséria e sente, também pela primeira vez, esperança.
O título e o final
Ao sair da casa da cartomante, Macabéa é atropelada por um Mercedes amarelo. A “hora da estrela” é a hora da morte: caída na calçada, cercada de curiosos, ela finalmente recebe atenção. Almeida e Masuda leem o carro de luxo como alegoria do processo de modernização e veem em Macabéa uma heroína trágica. A leitura deles não se apoia em uma vitória sobre a morte. Ela destaca que Macabéa afirma a vida no instante final.
O livro começa com a ideia de que tudo no mundo começou com um “sim” e termina com a palavra “Sim”, depois de o narrador lembrar que é tempo de morangos. Para Brose, esse fecho devolve o narrador e o leitor ao presente e indica que a vida continua além da ficção.
A obra e a história do Brasil
Esta é a parte que pode aparecer em questões de Humanas. Macabéa e Olímpico fazem parte de um enorme deslocamento populacional. Os dados de Fernando Novais e João Manuel Cardoso de Mello, citados por Almeida e Masuda, apontam cerca de 8 milhões de migrantes do campo para as cidades nos anos 1950, quase 14 milhões nos anos 1960 e 17 milhões nos anos 1970.
A cultura de massa está em toda parte no livro. Aparecem o patrocínio fingido da Coca-Cola, a dieta de cachorro-quente e refrigerante, as estrelas de Hollywood, a Rádio Relógio e os anúncios de jornal que Macabéa recorta e cola num álbum. O trabalho de Olímpico também diz muito. Na metalúrgica, ele passa o dia deslocando barras de metal sem nunca se perguntar por quê, o que os autores associam ao trabalhador alienado.
Com esse material, você consegue relacionar o romance a êxodo rural, urbanização, indústria cultural, alienação no trabalho e ao contexto da ditadura militar.
Erros que custam pontos
- Confundir Rodrigo S.M. com Clarice. O narrador é uma criação da autora, ainda que ela deixe a própria assinatura na dedicatória.
- Atribuir a Macabéa a frase sobre o sertanejo paciente. Ela se refere a Olímpico.
- Dizer que Macabéa sofre consciente da própria infelicidade. Ela só enxerga a miséria em que vive durante a consulta com a cartomante.
- Ler o título ao pé da letra. A “estrela” é irônica: a visibilidade chega apenas com a morte.
- Afirmar que o narrador cita João Cabral. A aproximação com o poeta é feita pela crítica.
Pontes com outras obras da lista
Com O navio negreiro, a comparação é produtiva. Castro Alves fala em nome dos escravizados com a segurança do poeta que denuncia. Rodrigo, ao contrário, duvida o tempo todo do próprio direito de falar por Macabéa. Os dois textos tratam de quem tem voz e de quem é falado por outros.
Com O som do rugido da onça, a ligação passa pelo deslocamento e pela perda de identidade. Nos dois romances, uma jovem é arrancada do lugar de origem, e em ambos o nome da personagem carrega uma pergunta sobre quem ela é.
Como usar na redação
A obra funciona bem em temas sobre invisibilidade social, trabalho precário, migração interna e consumo de informação fragmentada. A Rádio Relógio, com seus fatos soltos e sem contexto, conversa com os feeds de hoje.
O cuidado é o de sempre: o repertório precisa ser explicado e ligado ao argumento. Veja um exemplo de desenvolvimento:
Informação em excesso não garante compreensão da própria realidade. Em A hora da estrela, de Clarice Lispector, Macabéa ouve diariamente a Rádio Relógio e acumula curiosidades, mas não consegue entender a exploração que sofre nem se perguntar quem é. A personagem ajuda a pensar o jovem atual, que recebe fragmentos de conteúdo o dia inteiro sem que eles se organizem em conhecimento. Sem mediação escolar e leitura crítica, esse consumo tende a produzir distração, e não consciência.
Para aprofundar
ALMEIDA, Rogério de; MASUDA, Fábio Takao. A Hora da Estrela entre a ficção e a realidade: ou o trágico em Macabéa. Intelligere, v. 3, n. 1, 2017.
BROSE, Elizabeth Robin Zenkner. O existencialismo em A Hora da Estrela. Letras de Hoje, Porto Alegre, v. 34, n. 4, p. 77-90, dez. 1999.
FERREIRA-PINTO, Cristina. A luta pela auto-expressão em Clarice Lispector: o caso de A Hora da Estrela. Mester, v. 16, n. 2, 1987.
WALDMAN, Berta. Armadilha para o real (uma leitura de A Hora da Estrela, de Clarice Lispector). Remate de Males, v. 1, p. 63-70, 1980.
Leia o livro inteiro, de preferência duas vezes: na segunda leitura, os comentários do narrador que pareciam desvio passam a fazer sentido. E se você quer chegar à redação da UFGD com esse repertório bem treinado, o Curso de Redação Camila Torres tem entrada contínua e correção individual de cada texto.
