Uirapuru no Vestibular UFGD 2027: resumo, como pode cair e questões para treinar

Uirapuru, de Febraro de Oliveira, está na lista de obras literárias do Vestibular UFGD 2027, ao lado de O Som do Rugido da Onça (Micheliny Verunschk), Oração para Desaparecer (Socorro Acioli), A Hora da Estrela (Clarice Lispector) e O Navio Negreiro (Castro Alves). A prova será no dia 18 de outubro. Se você ainda não leu o livro, este texto ajuda a organizar a leitura. Se já leu, ajuda a revisar o que merece atenção.

Resumo da obra

Uirapuru é o romance de estreia de Febraro de Oliveira. É um livro curto e exigente. A narrativa não segue ordem cronológica: avança por fragmentos de memória, sonhos, cenas do presente e textos dirigidos a uma pessoa ausente. A história existe, mas quem monta o quebra-cabeça é o leitor.

Quem narra. O narrador é Léo, em primeira pessoa. Ele não organiza a própria vida para o leitor. Volta aos mesmos episódios, interrompe frases e mistura o que viveu com o que sonhou. É uma consciência marcada pelo trauma, e a forma do texto acompanha esse estado.

A família. Dois eixos sustentam a memória de Léo:

  • A mãe. Morreu de forma violenta, com tiros. Continua presente no livro pelos textos que o narrador dirige a ela.
  • O pai. É uma figura associada ao medo e à opressão, descrita com imagens de escavação e perfuração.

A casa da família aparece como espaço de violência, e o gesto de incendiá-la marca a tentativa de romper com esse passado.

Rosto e nome. Léo recusa a identidade que lhe foi atribuída. Rejeita o próprio rosto e procura um “desnome”, uma existência que escape dos rótulos impostos pela família e pela sociedade.

Desejo e violência. A descoberta do desejo homoafetivo passa por Dinho, o menino do primeiro beijo. A partir dele, o narrador reelabora a palavra “viadinho”, usada como insulto, e a separa em “vi a Dinho”. O insulto passa a guardar a lembrança de uma experiência dele. Mais tarde, o amor por João aparece como uma das poucas forças capazes de interromper a presença da morte na narrativa. A rua Uirapuru, que dá título ao livro, reúne afeto, perigo e violência.

A forma. O livro traz trechos cobertos por tarjas pretas: o leitor vê que havia algo escrito, mas não consegue ler. Há também frases curtas, repetições e diálogo com outros autores, como Fernando Pessoa e Adília Lopes. Esses recursos fazem parte do sentido do livro. Não servem de enfeite.

Como Uirapuru pode cair na prova

O edital da UFGD informa que as obras da lista podem ser cobradas em questões de múltipla escolha de diferentes áreas do conhecimento. Isso muda a forma de estudar. Saber resumir o enredo não basta, porque a pergunta pode vir de vários ângulos. Os mais prováveis são estes:

1. Construção da narrativa. Questões sobre o foco narrativo, a fragmentação e a ordem dos acontecimentos. Aqui, desconfie de alternativas que descrevam o livro como linear, com narrador onisciente ou linguagem objetiva. Desconfie também das que tratam a fragmentação como “falha de coesão”: no livro, ela é escolha de construção.

2. Efeitos de sentido da forma. As tarjas pretas são um alvo natural. A pergunta costuma ser sobre o efeito do recurso: o que o apagamento provoca em quem lê e o que ele revela sobre o narrador.

3. Língua portuguesa. O livro cria e desmonta palavras, e isso rende questões de gramática contextualizada. Palavras como “desnome” permitem cobrar processos de formação. A separação de “viadinho” em “vi a Dinho” permite discutir como o sentido de uma palavra muda conforme quem a usa.

4. Intertextualidade. A obra dialoga com outros autores. Uma questão pode apresentar uma citação e perguntar que relação ela estabelece com a trajetória do narrador.

5. Relação com outras obras da lista. Aqui mora o maior potencial de questões interdisciplinares:

  • A Hora da Estrela. Clarice Lispector também põe no centro um sujeito à margem e chama atenção para o próprio ato de narrar, pelas intervenções de Rodrigo S.M.
  • Constituição Federal (art. 5º). Está entre as obras normativas da lista. O artigo garante a igualdade perante a lei e a inviolabilidade do direito à vida, o que permite discutir a distância entre esses direitos e a violência que atravessa o livro.

Treine com duas questões

As questões abaixo são autorais, elaboradas para treino. Tente responder antes de ler o gabarito.

Questão 1
Em alguns momentos de Uirapuru, trechos aparecem cobertos por tarjas pretas. Esse recurso

  • A) corrige, na edição final, erros de impressão identificados pela editora.
  • B) indica, por convenção, a mudança de narrador entre os capítulos.
  • C) torna visível na página a impossibilidade de dizer certas experiências, fazendo do apagamento parte do sentido do texto.
  • D) reproduz documentos oficiais de censura anexados ao romance como prova histórica.
  • E) tem função decorativa e não interfere na interpretação da obra.

Questão 2
Ao longo do livro, o narrador Léo recusa o nome e o rosto que lhe foram atribuídos e busca um “desnome”. Quanto ao processo de formação, a palavra “desnome” resulta de

  • A) derivação sufixal.
  • B) composição por justaposição.
  • C) derivação parassintética.
  • D) derivação prefixal.
  • E) composição por aglutinação.

Gabarito comentado

Questão 1: C. O leitor percebe que havia algo escrito ali, mas não consegue ler. O apagamento é visível e intencional e mostra, na própria página, aquilo que o narrador não consegue ou não quer dizer. A alternativa D é uma armadilha comum: atribui ao livro uma informação documental que ele não oferece. A alternativa E ignora que, em literatura, a forma também produz sentido.

Questão 2: D. A palavra se forma com o prefixo des-, que indica negação ou reversão, acrescentado a nome. Houve apenas o acréscimo de um prefixo a uma palavra já existente. Na parassíntese (C), prefixo e sufixo entram ao mesmo tempo e um não funciona sem o outro, o que não acontece aqui. Mais interessante que a classificação é o efeito: o narrador cria uma palavra para uma condição que a língua ainda não nomeava, a de quem se desfaz do nome recebido.

Como estudar nas próximas semanas

Leia o livro inteiro, sem depender de resumos. Obras fragmentadas são justamente as que mais sofrem com resumos prontos: muitos circulam por aí com personagens, cenas e interpretações que não estão no texto.

Durante a leitura, marque os trechos ligados a quatro fios: mãe, pai, rosto e nome, desejo. Na revisão, volte a esses trechos e pergunte, para cada um, que recurso de linguagem está em jogo e que efeito ele produz. Depois, faça o exercício de relacionar Uirapuru com pelo menos mais uma obra da lista da UFGD.

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