O romance de Micheliny Verunschk está na lista de leituras obrigatórias da UFGD para 2026, 2027 e 2028, e a prova do Vestibular 2027 é no dia 18 de outubro de 2026. As obras da lista aparecem na prova objetiva, em questões de várias áreas: a pergunta pode vir da Literatura, mas também da História, da Sociologia ou da Geografia.
Resumo da obra
Na aldeia miranha, às margens do rio Japurá, vive a menina Iñe-e. Ainda pequena, ela se perde na mata e é encontrada viva ao lado de uma onça. A partir daí, fica marcada por um pacto com Tipai uu, a Grande Onça, dona da mata, que a ensina a ser onça quando quiser. O pai, o tuxaua João Manoel, vê a filha com desconfiança por causa desse pacto: para ele, quem se aliou à inimiga passou a ser inimiga também. João Manoel já adotou os costumes dos brancos, recebeu nome cristão e negocia pessoas do próprio povo em troca de ferramentas.
Em 1819 chegam à região os naturalistas bávaros Spix e Martius, no fim de uma longa expedição pelo Brasil, iniciada em 1817. Martius negocia crianças no porto dos Miranhas, mesmo com a discordância de Spix. João Manoel entrega Iñe-e de presente ao cientista. Junto com ela segue um menino do povo Juri, Caracara-í, que a narrativa também chama de Juri. Os povos dos dois eram inimigos.
A viagem pelo Atlântico é devastadora: crianças e animais morrem pelo caminho. Em Munique, os dois sobreviventes são exibidos à corte da Baviera como curiosidades da fauna brasileira e batizados como Isabella e Johann. Longe da família, dos ritos e da própria língua, Iñe-e sofre com o frio e o isolamento e passa a ver em Juri um irmão, porque os dois dividem o mesmo destino. Ela encontra conforto no rio Isar, que atravessa a cidade, conversa com ela e lhe traz notícias da família.
Juri adoece e morre. Os cientistas dissecam seu corpo, fazem uma máscara mortuária e guardam a cabeça em formol, como mais uma peça da coleção. Aos olhos de Iñe-e, o menino é “desencantado”, como os animais que ela viu serem empalhados. Pouco depois, a própria Iñe-e também morre em Munique.
Enquanto isso, Martius escreve. Em seus relatos, ele se apresenta como salvador das crianças e apaga a negociação que fez. A narradora mostra que, para ele, a rasura também é um método.
A morte, porém, não encerra a história de Iñe-e. Transformada em onça, ela recupera a voz e persegue Martius, cobrando dele o que o papel tentou esconder.
Em paralelo, o romance acompanha Josefa, uma paraense que mora em São Paulo há três anos. Desde que chegou, ela se esforça para apagar a própria origem. Carrega uma infância difícil e a história de uma bisavó kaiapó “pega no laço”, herança que a família preferiu esquecer. Numa exposição de gravuras do período colonial, Josefa depara com as imagens das crianças levadas por Martius e reconhece no rosto da menina miranha o seu próprio rosto. O encontro reabre as perguntas sobre sua ancestralidade, que ela divide com Tomás, um fotógrafo com quem se relaciona. Josefa acaba viajando a Munique em busca do túmulo das crianças.
O livro termina com Iñe-e pairando sobre o rio Isar, e as vozes dos povos indígenas se reúnem numa espécie de ciranda na última parte.
A história real e o que o romance faz com ela
Entre 1817 e 1820, os naturalistas bávaros Spix e Martius percorreram o Brasil coletando plantas, animais e objetos. No Porto dos Miranhas, no rio Japurá, obtiveram crianças indígenas com o tuxaua João Manoel, que negociava cativos com os brancos. Duas delas chegaram a Munique, uma menina miranha e um menino juri, e morreram na Alemanha entre junho de 1821 e maio de 1822. Suas idades são desconhecidas.
Publicado em 2021 e vencedor do Prêmio Jabuti 2022, o romance conta essa história pelo ponto de vista de quem foi levado. A menina ganha o nome de Iñe-e e uma voz própria. Várias vozes narram: Iñe-e, a onça Tipai uu, o rio Isar e trechos de textos da época. No presente, Josefa, uma paraense que vive em São Paulo, se reconhece na gravura da menina miranha e viaja a Munique atrás do túmulo das crianças.
Martius, o cientista que levou as crianças, escreveu em 1843 Como se deve escrever a história do Brasil. Nesse texto, compara o país a um rio de sangue português que deveria absorver afluentes indígenas e africanos. O romance questiona exatamente essa visão de história.
Quem é quem
Iñe-e é a menina miranha, entregue pelo pai a Martius e batizada como Isabella em Munique. Depois de morrer, vinga-se de Martius transformada em onça.
Juri (Caracara-í) vem de um povo inimigo do de Iñe-e, que passa a vê-lo como irmão. Os dois não têm parentesco de sangue.
João Manoel é o tuxaua que negociava pessoas. Ele existiu, mas ser pai de Iñe-e é invenção do romance.
Martius é o botânico que escreve para convencer e apaga o que o incomoda. Spix é o zoólogo, seu companheiro de expedição.
Tipai uu é a Grande Onça, com quem Iñe-e faz um pacto na infância. O rio Isar atravessa Munique e conversa com a menina.
Josefa tem uma bisavó kaiapó “pega no laço”. Ela se reconhece em Iñe-e, mas não descende dela.
Duas ideias centrais
Desencantamento. É como Iñe-e chama a taxidermia. Para ela, o animal empalhado perde a alma e a força, restando só a casca. A palavra opõe a ciência europeia, que conhece classificando e guardando, a uma visão em que todos os seres têm espírito.
Rasura. O romance mostra Martius editando os próprios relatos para se apresentar como salvador. A narradora resume: “a rasura também é um método”. O documento oficial também pode esconder.
Fato e ficção
A viagem, a negociação com João Manoel e a morte das crianças são históricas. O parentesco entre João Manoel e Iñe-e, o pacto com a onça e a vingança pertencem à ficção. Saber separar os dois ajuda na prova objetiva e evita erros na redação.
Como a UFGD cobra
Nas últimas provas, as questões sobre obras da lista trouxeram alternativas longas que resumem o enredo e trocam nomes, parentescos e funções dos personagens. Veja um exemplo:
Sobre o enredo de O som do rugido da onça, é correto afirmar que
- (A) Iñe-e e Juri são irmãos de sangue do povo Miranha, vendidos por Spix ao pai de Josefa.
- (B) Iñe-e é entregue a Martius pelo próprio pai, o tuxaua João Manoel. Em Munique, é batizada como Isabella e passa a ver em Juri, de um povo antes inimigo, um irmão.
- (C) Martius resgata Iñe-e de uma aldeia atacada por onças e a entrega a Tomás, curador da exposição que Josefa visita.
- (D) Juri sobrevive à viagem e volta ao Brasil, onde reencontra a família às margens do rio Isar.
- (E) Spix registra fielmente o sofrimento das crianças, e o romance reproduz essas anotações sem questioná-las.
Resposta: B. As demais alternativas trocam papéis, inventam parentescos ou contradizem o livro.
Há outro ponto a considerar: a questão indígena em Mato Grosso do Sul apareceu em todas as últimas provas, também fora das questões de literatura. Ler este romance prepara você para esse bloco.
Na redação
A UFGD pede texto dissertativo-argumentativo e orienta o candidato a ler os textos motivadores “em complementação às suas leituras prévias”. As obras da lista são repertório que a própria banca indicou. Veja um exemplo de uso:
A invisibilização dos povos indígenas tem raízes antigas na formação do país. No romance O som do rugido da onça, Micheliny Verunschk ficcionaliza a história de duas crianças levadas da Amazônia para Munique por naturalistas europeus no século XIX, rebatizadas e tratadas como parte de uma coleção científica. Ao devolver a essas crianças nomes e voz, a obra evidencia que o apagamento começa quando se nega a alguém o direito à própria história.
Apresente a obra em uma frase, explique o que ela revela e volte para o tema.
O material completo, com análise das provas anteriores, questões comentadas e repertório para a redação, está disponível na Loja.
Referências
FREITAS, R. D. S. Tempo e Argumento, v. 17, n. 45, 2025.
TORRE, M. M. C. Aletria, v. 31, n. 3, 2021.
VERUNSCHK, M. O som do rugido da onça. Companhia das Letras, 2021.
